TORA

Intérprete-Criadora: Rosa Primo
Direção: Anamaria Fernandes

Uma mulher recebe, tarde, um nome para aquilo que sempre foi:autista.
O nome não abre um futuro: reabre tudo o que já passou. A vida inteira precisa ser lida outra vez, e a forma que a sustentava de pé — apoio construído para caber no mundo dos outros — desaba. Sobram duas pernas e a possibilidade, aterradora, de caminhar.

Em cena, uma corda. Cordão de onde ela veio, linha da vida que se embaraça, caminho que se desenha e se desfaz, matéria que se recusa a tomar forma definitiva. A corda a puxa, a prende, a conduz, a abandona. Ela se desfaz nela, se perde, se procura, se constrói, se transforma de novo, de novo.

O solo se faz na companhia de muitas vozes que habitam e que atravessam aquele corpo. Entre elas, a de Clarice Lispector, de quem toma emprestada a suspeita de que perder a forma pode ser a única entrada. A criação faz a aposta de sustentar a desorganização o tempo suficiente para que uma forma — outra, própria, provisória — possa se formar sozinha, sem o comando de uma terceira perna.